Do Alto do Quelhas

Paralelo ao debate

Quanto ao resultado do debate poucas dúvidas restam. Chega de chover no molhado. O interessante é o pós-debate. O mais interessante são as escolhas das televisões para o comentar ou as capas dos jornais de hoje. O debate decisivo não mais o foi. Não esclareceu. Foi irrelevante.

Se o Correio da Manhã (por sondagem), o Diário de Notícias e o Económico dão vitória a Costa, todos os outros optam por falar de empates, do economês e de Sócrates. Não é por acaso. Assim como não é por acaso que surgem sondagens de 150 e 300 pessoas para dar vitórias à maioria, uma delas pelo Negócios (grupo Cofina, dono do CM e propriedade de Paulo Fernandes, visita regular da São Caetano à Lapa). Assim como não é por acaso que as peças do grupo Impresa (Pinto Balsemão, who else?), quer em artigos do Expresso quer em peças da SICN demonstraram uma atenção muito selectiva ao debate de Portas com Catarina Martins.

E parte do problema do PS em se impor definitivamente tem passado por aqui. A imprensa que não controla minimamente. Os spin doctors que não tem. É certo que num mundo ideal os jornais de referência são totalmente livres e independentes mas na prática bem que o PS se podia ter esforçado por passar a sua versão da história ao longo da legislatura. Hoje pisaria em chão firme e Costa já não teria de andar a espantar fantasmas em vésperas de eleições. Sempre teríamos mais presente a forma como o último governo caiu e o papel de Marco António Costa no processo.

Enfim, sejamos justos: a História não se escreve com grande detalhe. O que importa é que, chegados à Hora H, a narrativa da coligação caiu como um castelo de cartas, trazendo alguma justiça ao processo.

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Esperança

Perspectiva é o que transforma um copo meio-vazio em meio-cheio. Passámos os últimos anos de copo, carteira e mesa meio-vazios. Só agora, por obra e graça de outro fuso horário tornámos a olhar para diante. Agora, de queixo levantado, num misto de optimismo e apreensão mas, ainda assim, meio-cheios.

Agora é deixar a democracia funcionar. Mais do que um novo capítulo do rotativismo, o voto será a libertação dos portugueses, como foi há 40 anos atrás, dos que nos roubaram a esperança de um amanhã melhor. Esses serão varridos do mapa e isso é o que importa. O resto é ruído.

Virgens ofendidas

Há por aí muito boa gente que ainda se impressiona facilmente. Aquilo a que chamamos socialismo desapareceu há muito. Aliás, aquilo a que chamamos socialismo nunca existiu. No Partido Socialista português existiu, sim, a social-democracia e foi essa que, sim, foi metida na gaveta. Só o PCP ainda defende abertamente a nacionalização dos sectores estratégicos da economia. Só o PCP ainda defende aguerridamente os direitos do trabalho e dos trabalhadores. São eles que ainda mantêm viva a luta de classes. O PS aceita o discurso economicista da direita e faz do rigor das contas públicas ponto assente. Ou seja, o PS de socialista tem zero. O centro-esquerda progrediu com o resto do país. Já não usa colarinho-azul mas gravata, trabalha num escritório e conduz um belo carro. Envolveu-se com o capitalismo e deu à luz esta massa amorfa que é hoje.

E sabem que mais? Não me importo. Não tenho nada contra o centrão. Não tenho nada contra a terceira-via, apesar de estar na moda (ou agora já não, perdi-me…). É por isso que, ao contrário de outros, pouco me importo com a mudança de nome do PSF proposta por Valls. Eu, que até sou um tradicionalista no que toca a manter intacta a História de Portugal, fico pouco impressionado com tal choque.

A direita de hoje já foi esquerda em tempos. O papel da esquerda sempre foi o progressismo por contraposição ao situacionismo da direita. Sempre foi o espaço dos agitadores, dos revolucionários. Em tempos de socialistas. Actualmente, enquanto no Norte da Europa se experimenta uma nova esquerda, de poder ou não, com Verdes ou Piratas, e mesmo em Portugal surgem projectos como o Livre, alguns socialistas agarram-se a um nome a que as políticas nunca fizeram jus.

Identifico-me com a visão de Valls. Também vejo o espaço do PS como o espaço do reformismo. É daqui que espero soluções engenhosas como em tempos surgiu o Estado Social. Soluções que se ajustem à realidade, global, materialista. Que consigam contrapôr objectivamente esta reforma pateta do IRS com ideias concretas, sólidas, acerca do desenvolvimento sustentável, do problema demográfico. Que saibam que fiscalidade querem, que sistema político querem. Que Europa querem. Que lutem tendo sempre em vista a igualdade de oportunidades e a justiça social.

É isso que se espera do centro-esquerda. Se isto é socialismo? Chamem-lhe o que quiserem mas tentem não enganar o eleitorado.

Gestão de Tempo

Não é fácil. Não sei se é só falta de sorte ou se tenho mesmo mais olhos que barriga mas declinei três convites para o próximo fim-de-semana. Tive que dizer “não” três vezes porque já tinha dado um “sim”. Nem tão pouco foi ao primeiro mas ao mais importante. Tive de voltar atrás na palavra dada, num compromisso assumido. A resposta não se fez esperar.

Às vezes, nem todas as regras de gestão de tempo juntas nos valem. Por melhor organizados que sejamos há sempre imprevistos. Há sempre dissabores. O importante talvez seja nunca perder o Norte. É certo que quando não dependemos única e exclusivamente de nós surgirão sempre dissabores mas há que aguentar firme. Nunca esquecer a razão porque fazemos o que fazemos. Quanto aos outros poderão compreender ou não – amigos na mesma. Nós compreendemos.

Pessoa de Bem?!

(Eu sei, eu sei – já lá vão duas semanas desde o último post…)

Tenho-me abstido de boa parte do debate político da actualidade mas há questões que ultrapassam tudo. Segundo o D. Económico, o Governo quer aumentar para cinco mil euros o limite abaixo do qual os contribuintes não podem reclamar ou recorrer de decisões da máquina fiscal. Isto, poucos dias depois de saber que o Fisco pode recorrer às contas-poupança para resolver dívidas sem necessidade de qualquer ordem do tribunal.

Ora somando esta a outras medidas aprovadas anteriormente – a que permite executar o agregado familiar por dívidas de um elemento ou a que remete para as Finanças dívidas à S. Social, autarquias, hospitais ou concessionárias de auto-estradas (!) – só podemos concluir que nunca, como agora, o Estado foi tão forte perante os fracos (aqueles que não podem contar com um Lobo Xavier). Apesar de já não vivermos em ditadura. Apesar de este governo ser tido como o mais liberal da nossa História.

Tirem o dinheiro do banco, tranquem-se em casa. Portugal está oficialmente a saque.

Agitador

Sim, é demagogo. Sim, é populista. Marinho Pinto é tudo isso e muito mais mas tem uma virtude rara entre os eleitos: é frontal. Diz o que pensa e não deixa recados. É um agitador, é certo mas por vezes, em regimes acomodados, de vicíos cristalizados, como o nosso, também esses são precisos para dar um abanão na estrutura e obrigá-la a reagir. Espero vê-lo na AR.

Caprichos

Nos tempos que correm, e até por solidariedade para com quem não tem tais oportunidades mas que aproveitá-las-ia se as tivesse, devemos agarrar a primeira coisa que nos surge. Infelizmente, acho eu, tem sido difícil para mim aceitar tal ideia. Resignar-me ao facto que o meu destino não está nas minhas mãos mas nas da sorte. Custa muito. Para agravar a situação, fico sem saber afinal qual o meu lugar: na terra que me viu crescer ou na cidade onde mais cresci? Inclusivamente, meti na ideia que quero estudar algo em que possivelmente nem me vejo a fazer carreira – apenas por “realização pessoal”. Serei normal?

Magia Negra

Tenho um lido o “Personal MBA”. O autor dedica as primeiras 50p a desancar nos MBAs. Com uma certa razão, diria eu. Vejam-se por exemplo os famigerados mestrados em Finanças. Ensinam-se aos alunos como funciona toda uma multiplicidade de instrumentos financeiros, a maioria deles sem qualquer ligação ao mundo real, da economia palpável e dos activos tangíveis, que não servem para muito mais que o aumento do peso dos mercados financeiros e respectiva especulação na economia. (não que alguns não façam sentido). Ensina-se a olhar aos gráficos, ao comportamento do mercado, sem que sejam avisados que, por vezes, uma visão mais distanciada garante melhores resultados que simplesmente seguir o rebanho. Ensina-se uma magia negra sem que sequer consigam aplicar os mais básicos princípios de gestão financeira num tecido empresarial que tanto precisa deles.

Simplicity is beauty

(Falhei logo ao segundo dia mas hoje compenso)

“People always overestimate how complex business is. This isn’t rocket science. We’ve chosen one of the world’s simplest professions.” — Jack Welch

Não é, ao contrário do que me têm feito querer parecer nos últimos três anos, uma ciência. Nem tão-só uma arte. A Gestão é mais que isso. Requer estudo, reflexão, experiências – sobre indústrias, sobre processos, sobre a natureza humana – num processo de melhoramento contínuo, sem que haja qualquer escala, qualquer padrão que defina, preto no branco, o sucesso. Qualquer um a pode exercer e muitos dos especialistas não o conseguem. É a beleza da minha área. Nunca me aborreço.

Retomar

5 linhas por dia. Só isso, nada mais. A partir de hoje tento escrever cinco linhas sobre gestão, economia e negócios.

Um dos obstáculos que me preocupam na associação é a falta de profissionalismo. Sim, eu acredito que mesmo sem ser o nosso ganha-pão, devemos ser profissionais na organização da actividade. Em 3 dias percebi que há talento que pode ser potenciado e que merece também todo o meu empenho e – lá está – profissionalismo. Mais dedicação na resolução das questões jurídicas, no trabalho de sapa que é o apuramento de resultados das actividades mas também noutras funções como o planeamento, a gestão das pessoas e o marketing.