O regresso do animal feroz

by Miguel Romão

O animal feroz está de volta. E vem agitar as águas.

Caiu que nem uma bomba a notícia do regresso de José Sócrates de Paris. Pelo menos foi a sensação que me deu quando soube. Surpreendeu não pelo regresso em si, que era mais que expectável, mas pelo timing. Passaram apenas dois anos, as feridas ainda não sararam. Pior, o próprio Partido nunca soube recompor-se após a sua saída. E Sócrates já cá está de novo.

É natural que o governo apoie o regresso. Acreditam que, por mais crítico que Sócrates seja em relação ao executivo, o maior derrotado será sempre António José Seguro. E com alguma razão. Opositores no Parlamento, no próprio PSD, jornalistas, comentadores políticos, já todos traçaram diagnósticos sobre o que vai mal na direcção do país. Aquilo que Sócrates pode trazer de novo não são as críticas a Passos Coelho, são as farpas, mais ou menos encapotadas, que lançará em direcção a Seguro. Ou seja, enquanto Seguro estiver à frente do PS, e debaixo de fogo, o governo ganha tempo.

Note-se que não adianta de muito ao PSD. É que neste momento, a maior dor de cabeça vem da rua e essa não vai acalmar. Por outro lado, o despique que se aproxima pode resolver de vez a situação no Largo do Rato.

Aí, o problema é simples: Seguro não tem estofo para chefiar um governo. Faltam-lhe atributos: falta-lhe o carisma, faltam-lhe as ideias. falta-lhe uma equipa.

Sócrates apresentou-se no grande palco como animal feroz. Agarrou o partido com unhas e dentes e conseguiu agrupar um governo forte com políticos influentes no núcleo duro. Liderou o partido sem oposição. Tinha ideias. Goste-se ou não tinha-as: o investimento na tecnologia e na inovação, nas infraestruturas, na energia. Intenção de reformar de forma profunda a Administração Pública, a Saúde e a Educação, por exemplo.

Passos também. Nomes como Ângelo Correia, Luís Filipe Menezes e Paula Teixeira da Cruz acompanham-no desde o dia 0. Nogueira Leite apenas saiu agora. A sua visão para o país está publicada. A capacidade de liderança é questionável agora mas o partido uniu-se quando elegeu presidente. Era o candidato das bases, qual Bruno de Carvalho, até pela imagem um pouco diferente com que se apresentou a votos.

A Seguro falta tudo isto. Uma liderança inquestionável, que em parte é consequência da falta de ideias e de uma equipa competente que o projectem como alternativa credível. Acresce o facto de ter uma bancada parlamentar que lhe é hostil, pela elevada representatividade de ex-governantes socretistas. Por tudo isto, é pressa fácil. Agora, resta apenas saber: o que quer Sócrates?

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