Tiro no porta-aviões

by Miguel Romão

Se é certo que o estudo tem roubado as palavras ao novo blog não é menos verdade que nunca poderia deixar a saída de Miguel Relvas do Governo em branco. É claro que tenho de mandar o bitaite. É enorme! Está ao nível do regresso do outro.

Afinal de contas, em termos mediáticos, Relvas pesa tanto como todo o resto do executivo. Relvas é aquele fenómeno novo, diferente de tão inenarrável que é. Note-se bem a boçalidade do ex-Ministro ao cantar a “Grândola”, um dos momentos marcantes do seu fugaz mandato. Foi um inovador pela nova dimensão que deu à imagem do carreirismo político, um autêntico ícone nacional do chico-espertismo. Em todo o caso, correndo o risco de ouvir o mesmo de Sócrates calo-me e, para ser politicamente correcto, limito-me à análise fria e cinzentona da realidade política.

Relvas vai fazer falta a Passos.

É que, de certa forma, todo esse espalhafato desviava as atenções das questões políticas propriamente ditas, acabando por resguardar o fundamental da receita do PM e de Gaspar. Relvas foi, como um diário lhe chamou e bem, um pára-raios. E agora não há mais.

Também é verdade que a coordenação política e a estratégia de comunicação só poderá melhorar daqui para a frente pois tem sido absolutamente desastrosa. O governo tem sido incapaz de criar uma ligação com o país, manifestando entusiasmo por dar más notícias e olhar o futuro sem esperança. Bizarro, no mínimo.

Por outro lado, na própria pasta, Relvas falhou redondamente. A RTP está ligeiramente mais desarrumada já que agora ninguém sabe o que a espera. A tão propalada reforma autárquica nunca aconteceu. Cortou-se. Sem critérios de maior, sem estrutura. Cortou-se mas dezenas de municípios/quintinhas mantêm-se, o próprio funcionamento dos orgãos autárquicos continua a ser anacrónico, continua a não haver uma camada intermédia eficaz na Administração Pública. A boa da reforma que podia muito bem ter sido um pilar de uma verdadeira Reforma do Estado foi outro fiasco de Relvas.

Ou seja, a utilidade de Relvas residia em tudo aquilo que o fez cair. Na rede de caciques com que segurava o aparelho do partido. No spin involuntário que a sua presença no governo causava. Nunca foi mais que um controleiro politíco de província deslumbrado pelo poder da capital. Não chegou lá, não vai deixa marca. Agora, o governo está sem dúvida, mais limpo, mais enxuto. Miguel Macedo a assumir as mesmas funções poderá imprimir outra eficácia à acção política. Mas, e há um sempre um “mas”, o governo torna-se também mais vulnerável. Daqui para a frente, a discussão vai-se centrar na política, e aí, descontadas as quezílias pessoais das várias partes, as políticas actuais desmoronam-se que nem castelos de cartas.

Viu-se bem isso na entrevista de Sócrates. Neste momento, Passos está por conta própria. Agora que lhe entrou um lobo dentro de casa, é que se livrou do cão de fila.

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