Empreendedorismo à colherada

by Miguel Romão

No passado Sábado Miguel Gonçalves, o ilustre embaixador do programa Impulso Jovem, conseguiu uma vez mais prestar-se a figuras tristes ao falar à rapaziada empreendedora que participava no concurso BET24 na Universidade Católica. De facto, o enérgico speaker não pára de nos surpreender, com as suas cada vez piores intervenções desde que aceitou o convite de Relvas.

É pena. Confesso que fui um admirador da figura. A forma como entusiasmava a plateia, como transmitia o seu optimismo e energia a quem o ouvia, incutindo a vontade de fazer algo, de tomar o destino nas nossa mãos, era algo nunca antes visto em Portugal. No entanto, nos últimos tempos o discurso tem vindo a azedar. Mais que levantar a moral tem sido, como a voz do dono, moralista. A mensagem passada é simplesmente “Estão desempregados porque querem, porque são preguiçosos”. Encaixa perfeitamente no “não sejam piegas”. É cada um por si. Virem-se. Se não conseguirem, façam a mala e desapareçam daqui que é menos um problema para todos.

Miguel percorre agora o país a disseminar a hedionda narrativa do governo que assenta na desresponsabilização total do Estado pelo desempenho da economia e, em particular, no desemprego jovem. Além da óbvia perversão, perfeitamente alinhada com a doutrina neoliberal que querem implantar à força na plebe, toda a lógica subjacente é sintomática da completa iliteracia económica do actual governo.

Esta estória tem como visão o distante Sillicon Valley. Todavia esquecem-se que esse modelo que tão bem resultou nos Estados Unidos não é um molde universal. Não se decreta nem se “implementa”. Nasceu onde tinha de nascer. No país que foi fundando por emigrantes aventureiros, por pioneiros, por empreendedores. Que desde o início fez da iniciativa privada parte integrante do seu espírito. Que construiu a sua cultura, as suas instituições, as suas mentalidades de acordo com isso. A própria inovação/diferenciação surge como consequência natural da competitividade num enorme mercado livre. Num primeiro momento, conseguia-se pela aposta na Educação.

Assim, quando olhamos para Sillicon Valley, apenas podemos concluir que é o seguimento lógico dos duzentos anos que o antecederam. Claro que, como bons empresários que são os americanos trataram de exportar o conceito nas mais diversas formas. Surgem os livros, as conferências, as incubadoras, o capital de risco e todo um aparato associado à temática que representam por si só um negócio de milhões.

No entanto, para quem compra o tal conceito há que separar o trigo do joio. Sim, de facto há muitos e bons casos de sucesso de produtos verdadeiramente úteis que acrescentam valor à sociedade mas a maioria das ditas tecnológicas – o foco de toda a narrativa – estão longe de o ser. São empresas cuja fachada bem desenhada esconde um interior vazio, incapaz de gerar valor económico significativo (caso do Facebook, . Assim se explica a “bolha das tecnológicas” do início do século. E assim se explica também o seu aparecimento um pouco por todo o mundo, justamente pela facilidade em imitar tais estruturas. Só que poucos dispunham do músculo económico suficiente para poder enterrar milhões de dólares em milhares de empresas até que uma ou outra resultassem.

O problema surge quando ignorarmos essas nuances do contexto. Isto é, em países pequenos, sem a mesma escala, os mesmos recursos e a mesma mentalidade não se podem esperar o mesmo tipo de resultados. Nem tão pouco se pode esperar que este sector venha a ser mais que residual. Toda a falácia que vem sendo construída desvia as atenções do verdadeiro motor da economia nacional, as PME, mais precisamente aquelas que partem de sectores tradicionais, com décadas de existência em Portugal, para inovarem e exportarem. Como a Kyaia, a BA Vidro, a Corticeira Amorim. Milhares de empresas precisam de quadros qualificados e de uma gestão adequada para lá chegarem. Esta sim, deveria ser a preocupação.

Em contrapartida, a actuação do Executivo tem sido desastrosa. Enquanto as Finanças destroem o país por completo, não há ninguém no Governo que mostre conhecer a Economia nacional, muito menos que consiga traçar uma estratégia, sólida, focada, que nos ajude efectivamente a crescer. Simplesmente, não é por falarem de 5 em 5 minutos de crescimento económico que ele vai acontecer.

Eu acredito no empreendedorismo. Admiro quem tem esse espírito de iniciativa e tenho pena que não sejam mais. Só que também sei que deve ser uma escolha e não uma imposição decretada. Não há tal coisa como um liberalismo forçado.

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