Inseguro

by Miguel Romão

Diz uma sondagem do Correio da Manhã que a coligação PSD/CDS já surge à frente do PS para as eleições europeias. Vale o que vale.

Quanto mais não seja vale a partir do momento em a divulgaram.

E é preocupante para os socialistas. Por esta altura, o PS deveria estar folgadamente à frente dos partidos do governo. Mas não. Nunca, nestes quase 3 anos de destruição do país, António José Seguro se destacou claramente como futuro primeiro-ministro e vivemos tão só um dos períodos mais difíceis do pós-25A. Quer se queira quer não é um sinal de impotência.

Que o mandato de Seguro seria sempre dificíl todos sabíamos. No entanto, o principal partido da oposição nunca poderia furtar-se de construir uma verdadeira alternativa, realista aos olhos dos portugueses, o que acabou por fazer.

Assim, o PS depara-se com duas carências fundamentais: falta de ideias e falta de pessoas, problemas que se relacionam fortemente entre si.

Essa incapacidade tem sido notória no inicío deste ano. Enquanto a comunicação social rejubila com a evolução positiva dos indicadores económicos que vão sendo conhecidos, o PS tarda em desmanchar eficazmente toda a narrativa de milagre económico. Falham em fazer sobressair os verdadeiros custos do défice: o desemprego estrutural, a emigração em massa como não se via há 50 anos, a destruição dificilmente reversível de boa parte do tecido económico e do mercado interno. Em troca, fazem-nos acreditar nas falácias do maior excedente comercial desde a IIGM (sem referir o peso que o encolhimento do mercado interno teve na quebra das importações ou o que o ouro e os produtos refinados – estes últimos resultantes do investimento feito pela GALP em Sines há um par de anos – tiveram no aumento das exportações), na da quebra do desemprego (muito graças à emigração ou ao afastamento definitivo de muitos desempregados do mercado de trabalho) ou na fantástica redução do défice (que falhou redondamente as previsões constantes no acordo para a assistência externa).

É mérito do governo na medida em que, mais que bons resultados reais das suas políticas, se trata de um sucesso na comunicação e na gestão política. Finalmente estão a conseguir mostrar números aparentemente bons e certamente deverão conseguir guardar alguma “guloseima” eleitoral para a classe média que os elegeu o volte a fazer em 2015. Na frente europeia, uma comissão do PPE em pré-campanha e uma Merkel recentemente reeleita (além de um SPD benevolente relativamente às políticas seguidas) ajudam a aliviar um pouco a tensão que vinha sendo sentida quando a certa sltura se falava em segundo resgate. Por outro lado, o problema da crise de identidade política é transversal à social-democracia europeia, cujas esperanças de uma política de crescimento se esfumaram quando Hollande guinou à direita num dos últimos discursos.

A verdade é que me parece que, com socialismo europeu ou sem ele, o problema do PS passa essencialmente pela sua liderança. E que um líder forte, ouvido, reconhecido, como aquele que comenta nas quintas à noite na tv, teria sem dúvida outro peso mesmo que com um discurso semelhante. Cabe a Seguro provar-nos o contrário no próximo 25 de Maio.

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