Virgens ofendidas

by Miguel Romão

Há por aí muito boa gente que ainda se impressiona facilmente. Aquilo a que chamamos socialismo desapareceu há muito. Aliás, aquilo a que chamamos socialismo nunca existiu. No Partido Socialista português existiu, sim, a social-democracia e foi essa que, sim, foi metida na gaveta. Só o PCP ainda defende abertamente a nacionalização dos sectores estratégicos da economia. Só o PCP ainda defende aguerridamente os direitos do trabalho e dos trabalhadores. São eles que ainda mantêm viva a luta de classes. O PS aceita o discurso economicista da direita e faz do rigor das contas públicas ponto assente. Ou seja, o PS de socialista tem zero. O centro-esquerda progrediu com o resto do país. Já não usa colarinho-azul mas gravata, trabalha num escritório e conduz um belo carro. Envolveu-se com o capitalismo e deu à luz esta massa amorfa que é hoje.

E sabem que mais? Não me importo. Não tenho nada contra o centrão. Não tenho nada contra a terceira-via, apesar de estar na moda (ou agora já não, perdi-me…). É por isso que, ao contrário de outros, pouco me importo com a mudança de nome do PSF proposta por Valls. Eu, que até sou um tradicionalista no que toca a manter intacta a História de Portugal, fico pouco impressionado com tal choque.

A direita de hoje já foi esquerda em tempos. O papel da esquerda sempre foi o progressismo por contraposição ao situacionismo da direita. Sempre foi o espaço dos agitadores, dos revolucionários. Em tempos de socialistas. Actualmente, enquanto no Norte da Europa se experimenta uma nova esquerda, de poder ou não, com Verdes ou Piratas, e mesmo em Portugal surgem projectos como o Livre, alguns socialistas agarram-se a um nome a que as políticas nunca fizeram jus.

Identifico-me com a visão de Valls. Também vejo o espaço do PS como o espaço do reformismo. É daqui que espero soluções engenhosas como em tempos surgiu o Estado Social. Soluções que se ajustem à realidade, global, materialista. Que consigam contrapôr objectivamente esta reforma pateta do IRS com ideias concretas, sólidas, acerca do desenvolvimento sustentável, do problema demográfico. Que saibam que fiscalidade querem, que sistema político querem. Que Europa querem. Que lutem tendo sempre em vista a igualdade de oportunidades e a justiça social.

É isso que se espera do centro-esquerda. Se isto é socialismo? Chamem-lhe o que quiserem mas tentem não enganar o eleitorado.

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