Do Alto do Quelhas

O fim do idealismo

Após o choque de expectativas vem o fim do idealismo. Aceitamos que ser professor é preparar as aulas e corrigir testes sem nunca sentir o futuro das próximas gerações nas mãos. Ser advogado é escrever e analisar diplomas e contratos deixando a justiça na prateleira. Ser médico receitar anti-depressivos e fazer pensos adiando o salvar-vidas para um futuro distante. É a morte dos sonhos. É a vitória do conformismo perante a realidade, tal como ela é.

Inseguro

Diz uma sondagem do Correio da Manhã que a coligação PSD/CDS já surge à frente do PS para as eleições europeias. Vale o que vale.

Quanto mais não seja vale a partir do momento em a divulgaram.

E é preocupante para os socialistas. Por esta altura, o PS deveria estar folgadamente à frente dos partidos do governo. Mas não. Nunca, nestes quase 3 anos de destruição do país, António José Seguro se destacou claramente como futuro primeiro-ministro e vivemos tão só um dos períodos mais difíceis do pós-25A. Quer se queira quer não é um sinal de impotência.

Que o mandato de Seguro seria sempre dificíl todos sabíamos. No entanto, o principal partido da oposição nunca poderia furtar-se de construir uma verdadeira alternativa, realista aos olhos dos portugueses, o que acabou por fazer.

Assim, o PS depara-se com duas carências fundamentais: falta de ideias e falta de pessoas, problemas que se relacionam fortemente entre si.

Essa incapacidade tem sido notória no inicío deste ano. Enquanto a comunicação social rejubila com a evolução positiva dos indicadores económicos que vão sendo conhecidos, o PS tarda em desmanchar eficazmente toda a narrativa de milagre económico. Falham em fazer sobressair os verdadeiros custos do défice: o desemprego estrutural, a emigração em massa como não se via há 50 anos, a destruição dificilmente reversível de boa parte do tecido económico e do mercado interno. Em troca, fazem-nos acreditar nas falácias do maior excedente comercial desde a IIGM (sem referir o peso que o encolhimento do mercado interno teve na quebra das importações ou o que o ouro e os produtos refinados – estes últimos resultantes do investimento feito pela GALP em Sines há um par de anos – tiveram no aumento das exportações), na da quebra do desemprego (muito graças à emigração ou ao afastamento definitivo de muitos desempregados do mercado de trabalho) ou na fantástica redução do défice (que falhou redondamente as previsões constantes no acordo para a assistência externa).

É mérito do governo na medida em que, mais que bons resultados reais das suas políticas, se trata de um sucesso na comunicação e na gestão política. Finalmente estão a conseguir mostrar números aparentemente bons e certamente deverão conseguir guardar alguma “guloseima” eleitoral para a classe média que os elegeu o volte a fazer em 2015. Na frente europeia, uma comissão do PPE em pré-campanha e uma Merkel recentemente reeleita (além de um SPD benevolente relativamente às políticas seguidas) ajudam a aliviar um pouco a tensão que vinha sendo sentida quando a certa sltura se falava em segundo resgate. Por outro lado, o problema da crise de identidade política é transversal à social-democracia europeia, cujas esperanças de uma política de crescimento se esfumaram quando Hollande guinou à direita num dos últimos discursos.

A verdade é que me parece que, com socialismo europeu ou sem ele, o problema do PS passa essencialmente pela sua liderança. E que um líder forte, ouvido, reconhecido, como aquele que comenta nas quintas à noite na tv, teria sem dúvida outro peso mesmo que com um discurso semelhante. Cabe a Seguro provar-nos o contrário no próximo 25 de Maio.

Portugal já admite Guiné Equatorial na CPLP

É notícia do Expresso. Durante anos, Portugal recusou a entrada da Guiné Equatorial na CPLP. Com muitas e boas razões, acrescento eu. Não vejo qualquer relevância em prestar este serviço à ditadura, como já há poucas, do facínora Obiang, que não tem qualquer ligação política, económica ou cultural significativa com o nosso país. Acredito que a CPLP merece ser bem trabalhada entre o conjunto de países que a forma actualmente. Crescer por crescer, como a UE de resto tem feito, é deitar por terra o que de bom se fez. E mais grave que isso: neste caso é dar legitimidade na cena internacional a um estado que não a merece. Não vejo a hora de Machete desaparecer das Necessidades…

Presseurop

Acabou o Presseurop. É pena. Mais: é mau sinal. Um projecto bonito, ao melhor espírito europeu, que em torno dos melhores artigos da imprensa de referência europeia, reunia pessoas de outros tantos países, dando o seu ponto de vista na sua língua ou emprestada sobre o seu país ou outro – mas sempre sobre a sua Europa, a sua comunidade. Agora, por motivos financeiros, encerrou-se um projecto recente e aparentemente pouco dispendioso.

O presseurop era um dos únicos sites noticiosos que lia com frequência. Ali encontrava pontos de vista diferentes, mais esfriados, mais pensados, sobre assuntos que muitas vezes nem se relacionavam directamente com quem escrevia sobre eles. Foi ali, num site europeu, que muito fui aprendendo sobre outros grandes blocos políticos – o do leste, áfrica, américas e china – e como se relacionam com a UE. De uma forma ou de outra, assistir ao debate das questões mais polémicas, de cada país e do conjunto, acabava por unir os leitores, por obriga-los a pensar em conjunto. Não raras vezes, geravam-se discussões interessantes em 3 ou 4 línguas diferentes nas caixas de comentários. Fosse o Norte conta o Sul, fosse os europeus contra os imigrantes. Fosse a UE contra o mundo. Para mim, esse era o verdadeiro espírito europeu.

Pena que uma presumível europeísta – a vice-presidente da Comissão não tenha visto o mesmo valor.

Empreendedorismo à colherada

No passado Sábado Miguel Gonçalves, o ilustre embaixador do programa Impulso Jovem, conseguiu uma vez mais prestar-se a figuras tristes ao falar à rapaziada empreendedora que participava no concurso BET24 na Universidade Católica. De facto, o enérgico speaker não pára de nos surpreender, com as suas cada vez piores intervenções desde que aceitou o convite de Relvas.

É pena. Confesso que fui um admirador da figura. A forma como entusiasmava a plateia, como transmitia o seu optimismo e energia a quem o ouvia, incutindo a vontade de fazer algo, de tomar o destino nas nossa mãos, era algo nunca antes visto em Portugal. No entanto, nos últimos tempos o discurso tem vindo a azedar. Mais que levantar a moral tem sido, como a voz do dono, moralista. A mensagem passada é simplesmente “Estão desempregados porque querem, porque são preguiçosos”. Encaixa perfeitamente no “não sejam piegas”. É cada um por si. Virem-se. Se não conseguirem, façam a mala e desapareçam daqui que é menos um problema para todos.

Miguel percorre agora o país a disseminar a hedionda narrativa do governo que assenta na desresponsabilização total do Estado pelo desempenho da economia e, em particular, no desemprego jovem. Além da óbvia perversão, perfeitamente alinhada com a doutrina neoliberal que querem implantar à força na plebe, toda a lógica subjacente é sintomática da completa iliteracia económica do actual governo.

Esta estória tem como visão o distante Sillicon Valley. Todavia esquecem-se que esse modelo que tão bem resultou nos Estados Unidos não é um molde universal. Não se decreta nem se “implementa”. Nasceu onde tinha de nascer. No país que foi fundando por emigrantes aventureiros, por pioneiros, por empreendedores. Que desde o início fez da iniciativa privada parte integrante do seu espírito. Que construiu a sua cultura, as suas instituições, as suas mentalidades de acordo com isso. A própria inovação/diferenciação surge como consequência natural da competitividade num enorme mercado livre. Num primeiro momento, conseguia-se pela aposta na Educação.

Assim, quando olhamos para Sillicon Valley, apenas podemos concluir que é o seguimento lógico dos duzentos anos que o antecederam. Claro que, como bons empresários que são os americanos trataram de exportar o conceito nas mais diversas formas. Surgem os livros, as conferências, as incubadoras, o capital de risco e todo um aparato associado à temática que representam por si só um negócio de milhões.

No entanto, para quem compra o tal conceito há que separar o trigo do joio. Sim, de facto há muitos e bons casos de sucesso de produtos verdadeiramente úteis que acrescentam valor à sociedade mas a maioria das ditas tecnológicas – o foco de toda a narrativa – estão longe de o ser. São empresas cuja fachada bem desenhada esconde um interior vazio, incapaz de gerar valor económico significativo (caso do Facebook, . Assim se explica a “bolha das tecnológicas” do início do século. E assim se explica também o seu aparecimento um pouco por todo o mundo, justamente pela facilidade em imitar tais estruturas. Só que poucos dispunham do músculo económico suficiente para poder enterrar milhões de dólares em milhares de empresas até que uma ou outra resultassem.

O problema surge quando ignorarmos essas nuances do contexto. Isto é, em países pequenos, sem a mesma escala, os mesmos recursos e a mesma mentalidade não se podem esperar o mesmo tipo de resultados. Nem tão pouco se pode esperar que este sector venha a ser mais que residual. Toda a falácia que vem sendo construída desvia as atenções do verdadeiro motor da economia nacional, as PME, mais precisamente aquelas que partem de sectores tradicionais, com décadas de existência em Portugal, para inovarem e exportarem. Como a Kyaia, a BA Vidro, a Corticeira Amorim. Milhares de empresas precisam de quadros qualificados e de uma gestão adequada para lá chegarem. Esta sim, deveria ser a preocupação.

Em contrapartida, a actuação do Executivo tem sido desastrosa. Enquanto as Finanças destroem o país por completo, não há ninguém no Governo que mostre conhecer a Economia nacional, muito menos que consiga traçar uma estratégia, sólida, focada, que nos ajude efectivamente a crescer. Simplesmente, não é por falarem de 5 em 5 minutos de crescimento económico que ele vai acontecer.

Eu acredito no empreendedorismo. Admiro quem tem esse espírito de iniciativa e tenho pena que não sejam mais. Só que também sei que deve ser uma escolha e não uma imposição decretada. Não há tal coisa como um liberalismo forçado.

“r-i-g-o-r-o-s-a-m-e-n-t-e a-o c-e-n-t-r-o”

Excelente artigo que muito ajuda a compreender a arrumação ideológica (ou falta dela) dos partidos políticos em Portugal.

Habituei-me, não sei se por influência das publicações norte-americanas, a distinguir entre os campos social e económico/fiscal do espectro político, como se de uma grelha se tratasse. Julgava também que a diferenciação entre esquerda e direita se fazia inicialmente pelas posições assumidas no primeiro e que, com o advento da Industrialização e o passar do tempo, o campo económico passara a ser o critério de distinção. Todavia, em boa hora nos chegam estas palavras.

A tensão no seio do governo é elucidativa acerca da promiscuidade (ou se preferirem, da pluralidade) da direita. Era previsível e decorre do desenraizamento completo do liberalismo clássico que move a trupe de Passos Coelho e que esbarra por completo no Conservadorismo do CDS, ainda que fosse mais verdadeiro referir o contraste entre o radicalismo adolescente do PM e a inteligente prudência de Portas.

Não é que se vislumbre qualquer tipo de clarificação nos próximos anos já que o liberalismo irá certamente hibernar a partir de 2015 durante muito e bons anos e que o PC continuará a ser o único partido absolutamente claro nas suas ideias. Acredito é que ter a noção disso pode vir a ajudar.

“Fomento” significa farsa ou fiasco?

Não é assim que vamos lá. Não, não é com as reuniões extraordinárias e conferências de imprensa do costume, não é com os grandiosos planos e programas e pacotes de medidas de sempre.

Não é assim. Não é a atirar dinheiro para cima dos problemas que eles se resolvem. Nem tão pouco o conseguimos por enumerar todos os problemas como prioritários ou todos os sectores económicos como estratégicos.

Dois dos maiores empecilhos ao desenvolvimento económico e a criação de empregos no nosso país são a desorganização e a lentidão das administrações judicial e fiscal. São funções basilares do Estado e o mau serviço que prestam deve-se única e exclusivamente à incompetência dos sucessivos governos de ambas as cores. São incapazes de desempenhar eficazmente as funções de soberania mas insistem em eleger ‘clusters’ e em substituir os empresários no seu trabalho.

Por outro lado, perante tamanha impotência da Administração Pública, os verdadeiros sectores estratégicos atrofiam a economia a seu belprazer. Seja o sector financeiro seja o energético, meia dúzia de empresas lesam sucessivamente o erário público e o restante tecido empresarial e permanecem impunes pois o Executivo está somente focado em esmagar os custos laborais, promovendo a pobreza em larga escala.

A única dúvida que me resta é se se trata de manifesta incompetência ou apenas de cinismo. Seja como for, a minha proposta é a mesma: façam como Cavaco e calem-se. Sempre é melhor.

PS: é curioso, “fomento industrial” é quase um arcaísmo do tempo da outra senhora… como quem diz, do de Salazar e Caetano.

O futuro decide-se em 6 meses

No passado sábado PS e CDU apresentaram as suas candidaturas às eleições autárquicas do próximo Outubro.

Mais do que uma mera renovação de mandatos, o sufrágio vai ser o mais importante do género nos últimos 30 anos. Com a recente legislação que limita o número de mandatos consecutivos a três, 2013 ficará marcado pela extinção dos dinossauros autárquicos, obrigando a uma já tardia renovação.

A Chamusca é um exemplo paradigmático. Sérgio Carrinho preside à Câmara Municipal pela CDU desde 1979.

Muito aconteceu ao longo destes 34 anos. Veio o FMI, vieram os fundos europeus, o euro, a crise, e de novo o FMI. Houve o Cavaquismo e o Guterrismo. Sócrates entrou e saiu, emigrante. Há já 22 anos que o Muro de Berlim foi deitado abaixo. E a Chamusca, essa, mantém-se igual a si própria e assim se conservou com o passar do tempo. Incólume, paralisada perante a azáfama da Globalização e demais modernices. Imóvel. Como na velhice. Aquela em que já pouco separa os setenta dos noventa. Ora deitada ora estendida. Nos momentos de maior fulgor, sentada. Presa nesta madorna, a Chamusca parece um posto avançado do vasto Alentejo.

Custa escrevê-lo mas é verdade. É a mais pura das verdades.

Pouco nos separa desta realidade. É, lá está, apenas uma questão de tempo. Isto, claro, se nada for feito. Se o status quo for mantido. Ou, de forma mais directa, se os responsáveis pelo actual estado de coisas forem premiados pelo seu brilhante desempenho com a recondução no poder por mais quatro anos. A escolha é clara.

É hora de mudar! Já é altura de dar a oportunidade a outros para tentarem dar a volta à situação. De preferência, pessoas que não tenham ajudado a cavar este buraco. Não é pessoal, atenção, simplesmente acredito que é loucura fazer a mesma coisa vezes sem conta esperando obter resultados diferentes.

Os actuais responsáveis tiveram tempo de sobra para testar as suas ideias e mostrar resultados. Hoje, infelizmente para todos nós, não têm ideias novas e muito menos têm resultados minimamente aceitáveis para mostrar.

É momento de deixarmos de adiar a mudança que tarda. Daqui a 6 meses a Chamusca terá uma oportunidade única, porventura, a derradeira, de tentar inverter o ciclo actual. Cabe-nos a nós decidir se a queremos agarrar ou não.

Tiro no porta-aviões

Se é certo que o estudo tem roubado as palavras ao novo blog não é menos verdade que nunca poderia deixar a saída de Miguel Relvas do Governo em branco. É claro que tenho de mandar o bitaite. É enorme! Está ao nível do regresso do outro.

Afinal de contas, em termos mediáticos, Relvas pesa tanto como todo o resto do executivo. Relvas é aquele fenómeno novo, diferente de tão inenarrável que é. Note-se bem a boçalidade do ex-Ministro ao cantar a “Grândola”, um dos momentos marcantes do seu fugaz mandato. Foi um inovador pela nova dimensão que deu à imagem do carreirismo político, um autêntico ícone nacional do chico-espertismo. Em todo o caso, correndo o risco de ouvir o mesmo de Sócrates calo-me e, para ser politicamente correcto, limito-me à análise fria e cinzentona da realidade política.

Relvas vai fazer falta a Passos.

É que, de certa forma, todo esse espalhafato desviava as atenções das questões políticas propriamente ditas, acabando por resguardar o fundamental da receita do PM e de Gaspar. Relvas foi, como um diário lhe chamou e bem, um pára-raios. E agora não há mais.

Também é verdade que a coordenação política e a estratégia de comunicação só poderá melhorar daqui para a frente pois tem sido absolutamente desastrosa. O governo tem sido incapaz de criar uma ligação com o país, manifestando entusiasmo por dar más notícias e olhar o futuro sem esperança. Bizarro, no mínimo.

Por outro lado, na própria pasta, Relvas falhou redondamente. A RTP está ligeiramente mais desarrumada já que agora ninguém sabe o que a espera. A tão propalada reforma autárquica nunca aconteceu. Cortou-se. Sem critérios de maior, sem estrutura. Cortou-se mas dezenas de municípios/quintinhas mantêm-se, o próprio funcionamento dos orgãos autárquicos continua a ser anacrónico, continua a não haver uma camada intermédia eficaz na Administração Pública. A boa da reforma que podia muito bem ter sido um pilar de uma verdadeira Reforma do Estado foi outro fiasco de Relvas.

Ou seja, a utilidade de Relvas residia em tudo aquilo que o fez cair. Na rede de caciques com que segurava o aparelho do partido. No spin involuntário que a sua presença no governo causava. Nunca foi mais que um controleiro politíco de província deslumbrado pelo poder da capital. Não chegou lá, não vai deixa marca. Agora, o governo está sem dúvida, mais limpo, mais enxuto. Miguel Macedo a assumir as mesmas funções poderá imprimir outra eficácia à acção política. Mas, e há um sempre um “mas”, o governo torna-se também mais vulnerável. Daqui para a frente, a discussão vai-se centrar na política, e aí, descontadas as quezílias pessoais das várias partes, as políticas actuais desmoronam-se que nem castelos de cartas.

Viu-se bem isso na entrevista de Sócrates. Neste momento, Passos está por conta própria. Agora que lhe entrou um lobo dentro de casa, é que se livrou do cão de fila.

O regresso do animal feroz

O animal feroz está de volta. E vem agitar as águas.

Caiu que nem uma bomba a notícia do regresso de José Sócrates de Paris. Pelo menos foi a sensação que me deu quando soube. Surpreendeu não pelo regresso em si, que era mais que expectável, mas pelo timing. Passaram apenas dois anos, as feridas ainda não sararam. Pior, o próprio Partido nunca soube recompor-se após a sua saída. E Sócrates já cá está de novo.

É natural que o governo apoie o regresso. Acreditam que, por mais crítico que Sócrates seja em relação ao executivo, o maior derrotado será sempre António José Seguro. E com alguma razão. Opositores no Parlamento, no próprio PSD, jornalistas, comentadores políticos, já todos traçaram diagnósticos sobre o que vai mal na direcção do país. Aquilo que Sócrates pode trazer de novo não são as críticas a Passos Coelho, são as farpas, mais ou menos encapotadas, que lançará em direcção a Seguro. Ou seja, enquanto Seguro estiver à frente do PS, e debaixo de fogo, o governo ganha tempo.

Note-se que não adianta de muito ao PSD. É que neste momento, a maior dor de cabeça vem da rua e essa não vai acalmar. Por outro lado, o despique que se aproxima pode resolver de vez a situação no Largo do Rato.

Aí, o problema é simples: Seguro não tem estofo para chefiar um governo. Faltam-lhe atributos: falta-lhe o carisma, faltam-lhe as ideias. falta-lhe uma equipa.

Sócrates apresentou-se no grande palco como animal feroz. Agarrou o partido com unhas e dentes e conseguiu agrupar um governo forte com políticos influentes no núcleo duro. Liderou o partido sem oposição. Tinha ideias. Goste-se ou não tinha-as: o investimento na tecnologia e na inovação, nas infraestruturas, na energia. Intenção de reformar de forma profunda a Administração Pública, a Saúde e a Educação, por exemplo.

Passos também. Nomes como Ângelo Correia, Luís Filipe Menezes e Paula Teixeira da Cruz acompanham-no desde o dia 0. Nogueira Leite apenas saiu agora. A sua visão para o país está publicada. A capacidade de liderança é questionável agora mas o partido uniu-se quando elegeu presidente. Era o candidato das bases, qual Bruno de Carvalho, até pela imagem um pouco diferente com que se apresentou a votos.

A Seguro falta tudo isto. Uma liderança inquestionável, que em parte é consequência da falta de ideias e de uma equipa competente que o projectem como alternativa credível. Acresce o facto de ter uma bancada parlamentar que lhe é hostil, pela elevada representatividade de ex-governantes socretistas. Por tudo isto, é pressa fácil. Agora, resta apenas saber: o que quer Sócrates?